senhores,
constatei, sem sombra de dúvida: não somos um país. no máximo, somos um bando de pessoas que, por coincidência, falam português.
poucos notaram, mas há dois dias atrás comemorou-se a independência do brazil. vou confessar-lhes uma coisa: já até desfilei em 7 de setembro. os dois ou três leitores que me acompanham estranharão mas, um dia, eu já fiz parte do futuro da ilha de santa cruz.
quando morava na terra de césar cielo, a bucólica e caniveira santa bárbara, era escoteiro daqueles de usar canivete e ajudar senhoras a atravessar a rua e praticava, inclusive, uma boa ação por dia. naquele tempo, todo 7 de setembro, lustrava meu coturno, alinhava meu lenço e seguia pelas escaldantes e largas avenidas de santa bárbara, com o peito varonil celebrando a liberdade que raiará na ilha de santa cruz.
não era o único, claro, a desfilar. além de meus amigos escoteiros, desfilavam conosco fanfarras de escolas estaduais, carros do corpo de bombeiro e da polícia militar. a multidão - se é que é possível falar que a população de sbo é uma multidão - nos acompanhava e, no final, lá estava o prefeito para nos saudar.
já disse milhares de vezes, sou um sujeito tradicional que foge das modernidades. se já confessei um segredo, posso confessar outro: sou tão tradicional que ainda não aceitei o tal gerativismo. sou, no fundo, um saussuriano lírico. sou do tempo em que prefeito andava de carro preto, terno-gravata e segurança. sou tão retrógrado que sou incapaz de aceitar que um prefeito pense, nem por brincadeira, em andar de bicicleta. sou tão retrógrado que sou incapaz de imaginar um sete de setembro sem desfile.
quando saí de casa, no último sete de setembro, percebi que era um domingo qualquer, daqueles que pede cachimbo. não havia um único sinal, nem um cavalo de parada perdido para nos lembrar que aquele dia era cívico. nem mesmo um pracinha perdido para nos lembrar que se comemorava algo em relação á ilha de vera curz naquele dia. apenas uma despretenciosa bandeira pendurada no conjunto nacional denunciava alguma coisa.
mário de andrade, aquele da biblioteca, já disse que somos um povo sem caráter. mas eu, aquele que apenas vai à bibliotecas, pergunto: será que somos um povo?
9.9.08
30.8.08
até pouco tempo atrás, era praticamente impossível encontrar um barbarense fora de sua terra natal, a bucólica e canavieira santa bárbara d´oeste. mesmo os que lá nasceram e oravam sentiam um certo complexo de vira-lata e sempre diziam "nasci em america", "nasci em piracicaba" e, os mais bestas, diziam "nasci em são paulo" .
fora de sbo (pronuncia-se isbó), então, a vergonha era ainda maior. se, na rua, fosse apontado por um fulano que dissessse você não é de santa bárbara, como se fosse um avestruz dos desenhos de walt disney o sujeito enfiaria a cabeça dentro de um buraco e diria sou, mas fala baixo.
falo com a autoridade de quem nasceu e foi criado em santa bárbara e, para o bem ou para mal, nunca negou suas raízes interioranas. sou da opinião que mãe, time de futebol e passado o sujeito não deve negar jamais. até os 22 anos morei em santa bárbara e senti na espinha o complexo de barbarense.
não sei se freud já havia dectado tal complexo antes, se não, faço minha singela contribuição para a psicanálise. complexo de barbrense é o que sente, por exemplo, a irmã mais feia. aquela irmã que é incapaz de receber o elogio mais canalha do borracheiro mais sujo e se vê entre uma irmã parecida com scarlet johansen, a outra que tem os peitinhos de leandra leal. complexo de barbarense é o que sente também o irmão mais burro, incapaz de conujgar um verbo no presente simples e tem um irmão einstein e outro nelson rodrigues.
durante muito tempo, assim se sentia o barbarense. enquanto americana, limeira e piracicaba tornavam-se califórnias cercadas por cana, tecido e laranja, santa bárbara tinha a expressividade de um piauí. nem narcisos às avessas éramos. nem cuspir na própria imagem cuspíamos, já que nem imagem tínhamos.
não acredito que as olímpiadas chinesas tenham sido as maiores de todos os tempos. sou um incrédulo quanto ao valor do tamanho e o que a china apresentou foram apenas números grandes, mais apenas números. como estava falando, talvez a humanidade rapidinho se esqueça das olimpíadas da china, mas para o barbarense ela será lembrada até o fim dos dias. lá, onde a linha do equador é apenas uma lembrança, santa bárbara conheceu sua imagem, conseguiu enxergar um semelhante. o aquaman dos canaviais, césar cielo mostrou ao próprio barbarense que ele existe.
desde então, surgem barbarenses de todos os lados. não se pode ir a uma banca de jornal em são paulo que se encontra um barbarense. até os barbarenses que se diziam nascidos em outras cidades estão à luz do sol. hoje, orgulhoso, o barbarense caminha de cabeça erguida pelos territórios vizinhos e diz: um barbarense já foi medalhista de outro olímpico.
24.8.08
às vezes, muito raramente diga-se de passagem, me considero normal e que todos os males que me afligem, afligem também a humanidade.
já declamei, de peito nu, como um gladiador romano nos filmes de ben-hur, que padeço da falta de criatividade. sou tão criativo e óbvio quanto 1 + 1 = 2, mas do mesmo mal também padece a humanidade. o último instante da criatividade humana foi a roda e a scarlett johansenn.
vejam bem, senhores, em 100 anos de machado de assis, fala-se só dele. o pobre escritor estava lá esquecido, praticamente aposentado e pela única razão de seu centenário aniversário fúnebre, volta a ser discutido. o mesmo acontece com os japoneses. serei sincero: não agüento mais ouvir falar de exposição sobre japoneses. acredito que nem no japão se fala tanto sobre os japoneses e, como se já não bastasse, a china.
foram 15 dias sobre china. em todos os programas de televisão havia alguma menção às olímpiadas. não há um único momento, durante um café, em uma fila de banco, a espera do trem, em que não tenha um sujeito comentando sobre a china. graças ao bom deus, pelo menos da china não falaremos mais esse ano.
de agora em diante, falaremos de eleições. ou até, nada mais óbvio, plageando josé simão, ereções. confessarei ao bom e unitário leitor que adoro eleições. é o período em que os habitantes da ilha de vera cruz escancaram seu caráter. é quando, sem o menor pudor, o brazileiro estabelece seu preço.
senhores, leiam uma reportagem que sintetiza o que pensa o ilhéu, como diria um amigo legal, sobre as eleições.
22.8.08
Pelo menos, um cara de SBO, como meu amigo CHATO, deu o ar da graça... mas um tanto sem graça...
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20.8.08
Sou do tipo de pessoa que parece circular por aí com a palavra "PSICANALISTA" escrita na testa, tantas são as vezes que sou procurado por gente querendo desabafar e perguntar minha opinião sobre os mais variados assuntos. Com um colega desses de dor de cotovelo de balcao de buteco não poderia ser diferente. Costumava meu amigo me dizer sobre sua paixão imortal por certa senhôra, com quem ambos trabalhavamos numa escola. Porém, algo de muito estranho, meio POLTHERGEIST ou CONTATOS IMEDIATOS ou ERAM OS DEUSES ASTRONAUTAS? ocorria quando esse amigo chegava perto da mulher em questão: não conseguia dizer uma palavra para ela. Isso mesmo: meu confrade ficava paralisado, com a moça a lhe sorrir o tempo todo. Nem um mísero "bom dia" o coitado era capaz de proferir; se limitava a olhar para a sua musa, com a baba elástica e bovina da covardia a lhe escorrer pela boca. E me contava, no buteco, seus dissabores. "COMO SOFRO, PROFESSOR" era sua frase mais recorrente.
Certo dia, ao sair de um café, me deparo com um ajuntamento de pessoas. (Abro um parêntese e digo que os habitantes de nossa ilha de vera cruz adoram um ajuntamento). "Atropelaram uma dona", dizia uma voz qualquer. Me aproximo, varando a massa humana, e vejo a paixão imortal de meu amigo estendida no chão, já do outro lado da vida.
Contei toda essa história para ilustrar que se formos covardes a vida toda, corremos o sério risco de jamais conseguirmos saber se seríamos ou não bem-sucedidos em nossas ações. E foi por absluta pusilanimilidade que o escrete entregou o ouro (literalmente) para a Argetina.
Perder é aceitável? Em hipótese alguma. Agora, perder para a Argentina por sentir medo é ainda pior. Sinceramente, eu jamais havia visto um escrete tão covarde, tão medroso, a começar pelo seu técnico (?).
Tenho pouco a dizer sobre o jogo, até porque não consegui (e provavelmente, nem com muita psicanálise conseguirei) me recuperar do golpe e do trauma. Meu almoço se transformou numa crise de gastrite. Minha aula se transformou num réquiem para aquilo que um dia já foi chamado de escrete. Minha noite se transformou numa conversa com a insônia. E meu texto se transformou num emaranhado de palavras que mal posso juntar. Assim como não posso juntar os cacos do meu coração.
Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Mauro, Nilton Santos, Marinho Chagas, Orlando, Júnior...
Clodoaldo, Gérson, Rivelino, Zizinho, Didi, Zito, Zagallo, Zico, Falcão...
Tostão, Edu, Jairzinho, Joel, Dida, Amarildo, Romário, Careca, Pepe, Canhoteiro, Leônidas...
Garrincha...
PELÉ...
Parece incrível, mas nosso escrete já teve tudo isso e mais um pouco.
E hoje temos de engolir um nome de anão de contos de fadas...
19.8.08
sempre considerei lugar comum, recurso de poeta de porta de espaço unibanco dizer que falta palavras para definir a tristeza. senhores, equivoquei-me, pois hoje não encontro palavras para definir minha tristeza.
não há mais sentido no que sou. o que construí de mim mesmo é agora uma arquitetura triste, capenga e sobria. sou como aqueles prédios antigos da luz, não faço mais sentido.
preferiria ter uma mãe meretriz ou uma esposa infiel a passar pela humilhação de ver a escrete perder da argentina como perdeu hoje. até quanto, meu deu, um homem consegue suportar tanto sofrimento na alma. sangro tanto, mas tanto, que até deus estou invocando.
dirão os idiotas coorporativos que um jogo de futebol é apenas um jogo de futebol. dirão os cretinos de esquerda que futebol é o ópio do povo. futebol é apenas futebol, concordo, mas futebol é mais que tudo quando a escrete joga.
minha alma queimou no mais ardente fogo do hades... sofro tanto, mas tanto que quase escrevo como um parnasiano. assisti o jogo no colégio, que me lembrou os aureos tempos da pátria de chuteira. lá estavam as crianças, eufóricas pelos craques brazileiros, olhinhos brilhantes a procura da mais sútil trivela que só um braziliero pode dar. me senti como no tempo em que pintávamos as ruas e saíamos apressados do trabalho apenas para assistir o jogo da seleção. mas o que foi adolescentes vibrando com o primeiro gol da argentina. meus queridos alunos: espero que sua euforia se transforme na mais eterna melancolia e que seus olhos sequem e saltem de suas órbitas.
os meninos, que vão para o raio que lhes parta, não tem a mínima idéia do que significa a escrete. a seleção brazileira sempre foi a sublimação do esporte, o corpo humano e mente em plenitude. o que phelps fez em duas olimpíadas parece recreio de jardim-da-infância perto do que já fez a escrete. os adolescentes, idiotas como só os adolescentes podem ser, não fazem a mínima idéia disso. e jamais farão.
hoje, senhores, a derrota não significou apenas a perda do ouro olímpico, mas o enterro da escrete. a perda, a humilhação perante a argentina. pouco me incomoda perder para os africanos, mas perder para a argentina causa câncer. perder da argentina é cuspir, rasgar e queimar o passado. é anular todas as glórias.
uma seleção que se diz brazileira, um time que já foi uma escrete nunca poderia ter jogado sem as estrelas. as estrelas mostram o que somos, carregam o nosso sangue. fomos uma seleção de país nenhum, amênicos.
dificilmente nos recuperaremos do que vimos hoje. é um maracanazzo, que naquela época nos fez perder a alegria de sermos. a derrota em 50 nos fez ter vergonha de sair às ruas, de mostrar os dentes, de falar oi para os amigos.
fomos pó e ao pó voltamos.
depois de tanto que escrevi, ainda não consegui dizer o quanto estou triste. o máximo que consigo é: estou triste, muito triste.
10.8.08
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9.8.08
senhores,
como poucos sabem - afinal, são poucos os que me lêem - tenho um poder de abstração extremamente reduzido e é difícil entender certas sutilezas do mundo. percebo que a maioria das pessoas entendem tais sutilezas enquanto eu, como se usa no português informal, fico boiando. às vezes penso, de quem seria a culpa da minha reduzida capacidade cognitiva? serias da genética pouco privilegiada de minha mãe? talvez não, já que da. bete é bastante esperta. na verdade, acredito que seja culpa do capitalismo, da globalização e do aquecimento global.
confesso isso porque essa semana voltaram a falar da lei da anistia. durante muito tempo, achava que anistia geral, ampla e irrestrita servia apenas aos que deveriam ser anistiados, ou seja, aqueles que o estado brazileiro transformou em ilegais. não eram eles que deveriam ser anistiados?
não precisam nem me avisar, pois sei que entendi errado. a anistia geral, ampla e irrestrita valia também para os militares e para os seguidores do delegado fleury, ficando os crimes que eles cometeram por isso mesmo. torturou? ok, deixe isso de lado e vá viver sua vida? estuprou e não ligou no dia seguinte? tudo bem, mas não faça mais isso, combinado?
o que não encaixa nessa trama toda é fato de os militares, no crepúsculo da orgia que promoveram, proporem uma anistia a eles mesmo e oferecer como troco a anistia aos que realmente precisavam dela. é como o ladrão de galinha que é preso por ele mesmo, inocentado por ele mesmo e, de quebra, inocenta a galinha pelo crime de ser galinha.
interessante é o fato do povo ter aceitado tudo de bom grado, como se realmente a galinha fosse a criminosa. até onde eu saiba - que não é muito longe - quem tomou o estado para si foram eles. os que usavam recursos públicos para com ferro e fogo defender interesses privados eram eles e...
agora entendi. eles são realmente os que precisam de anistia.
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3.8.08
nunca houve nada tão sublime no cinema nacional do que os peitinhos de leandra leal
da série querendo ser otto lara rezende

